O texto curatorial de Marcus de Lontra Costa
& Rafael Fortes Peixoto:

Chico Cunha faz parte de um momento brasileiro em que a arte surgiu como um grito de liberdade de expressão. A Geração 80, da qual Chico de destaca no campo da pintura, resgatou a experimentação como ferramenta de conexão entre vida e arte: a aventura da expressão liberta de véus filosóficos ou trincheiras conceituais.

Das inquietações plásticas de uma sociedade que produz imagens, entre o consumo e o descarte, o olhar do artista captura os hiatos. Em suas telas Chico Cunha reúne fragmentos de memórias afetivas, artísticas, visuais e ficcionais, na investigação da pintura como um palimpsesto, entre o ontem e o hoje, o transitório e o eterno. A voz íntima, delicada e sofisticada da pintura de uma geração de cores, contrastes, gestos e narrativas.

Chico Cunha, Bem vindo ao Parque Lage.

Paisagens de Guignard, iluminuras medievais e a natureza fauve de Gauguin, suas obras suspendem a questão do tema através de uma névoa de imaginação que nos envolve. Os títulos parecem servir de farol do percurso do olho sobre a tela.

O nome da mostra é uma citação ao famoso livro de Roland Barthes, “Fragmentos de um discurso amoroso”, publicado em 1977, onde o autor discute a linguagem romântica a partir de textos de filósofos, poetas e intelectuais como Sócrates, Freud, Werther e Nietzsche. No flerte entre estas duas pesquisas, essa exposição que reúne a produção recente de Chico Cunha aponta direções sobre a pintura como linguagem que são fundamentais para o cenário artístico contemporâneo, e fazem parte da trajetória de Chico de maneira íntima e processual.

Chico Cunha, Barco medieval.

Chico Cunha – Fragmentos de uma pintura amorosa é a exposição que segue em cartaz, até 20 de julho de 2024, na Danielian Galeria com 35 obras recentes do artista. Importante nome da Geração 80, Chico Cunha ocupa os espaços expositivos da casa principal da galeria na Gávea com sua produção recente. Ele trabalha a pintura a partir de diálogos entre a história da arte e suas referências visuais afetivas. O título da exposição é uma alusão ao livro publicado em 1977 pelo filósofo francês Roland Barthes (1915-1980), em que analisa a linguagem das relações amorosas. Para o curador Marcus de Lontra Costa:

“Desde o início, Chico Cunha se afirmava como um dos mais destacados da Geração 80. Em meio à vibração cromática e os gestos vigorosos, a pintura de Chico caminha na direção contrária, com delicados fragmentos de uma paisagem íntima. Uma ponte entre tempos.”

O curador Rafael Fortes Peixoto comenta também que:

“Este flerte entre o texto de Barthes e as obras do Chico Cunha se apresentou para nós quando percebemos que os dois partem de um olhar afetivo para pensar tanto a linguagem como a pintura em si. O Chico coloca na tela vários fragmentos que ele capta da história da arte, do imaginário cultural brasileiro e de suas próprias memórias em uma provocação completamente contemporânea sobre a força e o papel da imagem.”

Biombo com Japonesa, obra de Chico Cunha.
Biombo com Japonesa, obra de Chico Cunha.

Chico Cunha é artista visual, professor, arquiteto e cenógrafo. Dentre as exposições coletivas de que participou, destacam-se a Bienal de SP, a Bienal de Cuba e a histórica exposição “Como vai você Geração 80?“, da qual se tornou um dos principais expoentes. É professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage desde 2002. Realizou individuais recentes em galerias e centros culturais como Paço Imperial no RJ, Centro Cultural Oi Futuro, Cavalariça do Parque Lage e Galeria Eduardo Fernandes, que o representa em São Paulo. No último ano, participou, no Rio de Janeiro, de coletivas na Casa França Brasil, Pinakotheke Cultural e Casa Roberto Marinho. Seus trabalhos integram acervos de coleções prestigiosas como MAM Rio de Janeiro, MAM São Paulo, MAC Niterói, Coleção Cisneros, Satamini, Gilberto Chateaubriand, UNESCO e Shell, entre outras. 


SERVIÇO: Exposição “Chico Cunha – Fragmentos de uma pintura amorosa”, até o dia 20 de julho de 2024, na Danielian Galeria, Rua Major Rubens Vaz, 414, Gávea, Rio de Janeiro. Acesse: www.danielian.com.br

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